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21:31
por Maria João Carvalho
O meu sonho
Um dia abro os olhos e Deus ilumina o meu salão com a luz dos que ganham a esperança. Estão lá lodos os livros e todas as mãos. Os pequeninos dedos das meninas violadas do Sudão ou as mutiladas de Serra Leone e as guerilheiras da Nigéria. Estão irmãs sem família de Angola e as pequenas fugitivas da mão pesada e cobiçosa do Rei da Suazilândia. E as bebés que deixaram às portas das igrejas terão cobertores e biberons. Estará, no salão, um contabilista de almas perdidas que fará o ponto dos lares que nunca tiveram Natal e têm meninos para alimentar.
O salão é luminoso. Único. Terá corredores que vão dar a quartos onde os ursos de peluche e as bonecas farão pequenas covinhas em fofos edredons. As meninas nunca gritarão. Surpreender-se-ão, talvez, com os voos das borboletas e as rasteiras dos rapazes no recreio. As meninas não serão raptadas, violadas, excizadas, ostracizadas. As meninas serão meninas a partir do momento em que pisem o meu salão.
Não será um bercário ou uma prisão. Da minha biblioteca sairão pessoas pequeninas com grande expectativa de vida. Não há heras rumo ao céu cheias de oiro. Talvez um arco-íris, a maresia e um coelho aos saltos à volta de um repolho por colher.
MJC
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00:18
por Maria João Carvalho
Fumar mata, mandou dizer o governo em quase dois terços do pacote de cigarros quando a directiva europeia não obrigava a tanto. Mais papista que o Papa, o governo, Estado, ou o que se quiser, esqueceu-se de mandar imprimir nos veículos da morte que: o stress mata. O desemprego, que causa stress, mata. O assédio moral no parco emprego, mata. A desilusão e a mentira matam. A injustiça revolta e, mais tarde, mata. O stress é o grande amigo do governo que diz que o tabaco mata. Quanto mais stress, mais cigarros se fumam, e mais impostos se cobram através dessas coisinhas de vinte tubos químicos cheios de erva seca cheia de nicotina e saborosíssima que, dizem depois, mata. Mas mata lentamente. Há coisas, na vida, que matam mais depressa: uma traição leva à hipertensão e ao ataque cardíaco de qualquer naïf. São coisas do mundo real, dizem os experts destas coisas dos negócios e das chefias que traem rápido o mundo do coração¿ O que é certo é que fumar não está a matar com a devida velocidade os excessos de levas que a sociedade enfia nos psiquiatras. Há que fazer qualquer coisinha, não é? E daí a advertência enorme, maior do que em qualquer outro país, de que FUMAR, MATA. Estou já a imaginar os pedidos de indemnização, no Tribunal dos Direitos do Homem, porque, fumando, afinal não se morre assim depressa como convem. Não há dinheiro nem para o veneno "615 forte" de ratos. O vinho está pela hora da morte e mesmo a água encanada está com cortes de lexívia e sabe apenas a termas da Aguieira de águas há 30 anos paradas. Fumar não mata mais do que respirar o ar no centro de uma qualquer cidade cosmopolita. Experimente-se a Avenida da Liberdade à hora de ponta. Não há asmático que resista. Acho que vou montar um negócio de elegantes caixinhas-cigarreiras. Escreverei (ai, que tentação!): use com prazer.
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