Rotativas

Segunda-feira, Maio 16, 2005


O Palácio Ideal do carteiro Cheval

Eis a história de alguém que não pontapeteou (literalmente) um sonho, antes o acarinhou, o perseguiu sozinho, o realizou e o defendeu.
Era uma vez um carteiro rural, da região do Drôme, a sul de Lyon, França, que viveu no século XIX. Sabia o suficiente para ler e escrever, mas não consta que tivesse lido por aí além. Era atento na missa, o que lhe proporcionou algum saber sobre as Sagradas Escrituras, e muito metido consigo próprio, introvertido, mesmo um original, chamavam-lhe na altura para não dizerem abertamente que era doido.
Ferdinand Cheval nasceu em 1836. Ficou orfão de mãe aos 11 anos e de pai aos 19 tornando-se, nessa idade, padeiro. Estávamos na época de Baudelaire, que publicava as Flores do mal, de Flaubert com Madame Bovary, no tempo da invenção da bicicleta e da anexação da Cochinchina oriental pela França. Claude Monet inventava o impressionismo na altura em que Cheval perdia o primeiro filho, tinha o segundo e mudava de vila para se tornar carteiro rural em Anneyron, onde não foi muito feliz por lhe ter morrido, quase a seguir, a primeira esposa.
Já em Hauterives, casa-se de novo e leva uma existência aprazível como pode ser a de um homem que caminha 32 quilómetros por dia para entregar o correio numa região onde as pessoas vivem muito mal, têm fome, dormem em folhas e vestem trapos, ficam facilmente doentes. Talvez lhes lesse, mesmo, o correio.
Em 1879 o carteiro sonhador tinha 43 anos e tropeça numa pedra, rebolando pelo caminho. Outro homem teria praguejado e mesmo pontapeteado de novo a pedra que o fizesse cair. Mas não este Cheval! A queda provocou mesmo um click psicológico libertador de pulsões criativas . Ainda estrebuchando, pegou na pedra e maravilhou-se com a sua beleza esculpida pela erosão dizendo para si mesmo: já que a natureza quer fazer escultura, eu farei a carpintaria e a arquitectura. E dia após dia, na sua ronda, o carteiro recolhia pedrinhas e mais pedrinhas que deixava em montinhos ao longo do caminho. Pela noite, voltava com um pequeno carro de mão em madeira e recolhia as pedras escolhidas. Ferdinand conhecia bem as margens do rio onde se encontravam os seixos mais achatados e longos de formas poéticas, endurecidos pela água, os calhaus redondos e avermelhados, as conchinhas, cascas de ostras e de caracóis, fósseis¿e depois, as frigideiras imprestáveis que os vizinhos deixavam no lixo e os velhos carris da estação de caminhos de ferro, tudo ele recolhia e depositava no seu quintal, entre alfaces e cenouras. Estava-se no fim do século XIX, quando o expansionismo colonial fazia descobrir à metrópole uma variedade de povos e culturas que evocavam paraísos tropicais. Falava-se de ruas pavimentadas a oiro na Austrália e nas Américas, apesar da realidade dos campos que Fedinand Cheval conhecia ser muito diferente, mesmo precária.
Neste contexto, o carteiro resolve construir com os seus pequenos seixos de formas bizarras o Templo da Natureza. Na verdade, ele é o primeiro escultor orgânico e naïf de França, senão do Mundo. Gaudi será, a um outro nível, o segundo.
Num primeiro tempo, chegou a obter autorização municipal para ser enterrado lá com a sua mulher, mas essa autorização foi depois retirada, tendo ele construído o seu túmulo do silêncio e do repouso sem fim no cemitério local, dois anos depois de acabado o Templo que, mais tarde e por inspiração de um poeta de Grenoble, o bardo Alpino, toma o nome de Palácio Ideal (C¿est de l¿Art, c¿est du rêve, c¿est de l¿énergie (¿) ton palais à l¿Ideal superbe).
O palácio Ideal aparece assim como um hino à vida e à morte que o carteiro desafia construindo uma obra que continuará depois dele. E essa vontade de realizar uma obra única aproxima-o da arte pura, total.
Para equilibrar os 26 metros da fachada leste, Cheval construiu um monumento de cada lado, enche de terra o templo egípcio onde construira o local que abigaria as duas urnas. Nas quatro colunas desse templo, o carteiro inscreve a sua paixão pela terra natal e na gruta da Virgem Maria rodeia-A dos quatro evangelhistas, afirmando as suas convicções religiosas. Na parte oposta esculpe os três gigantes: Arquimedes, o grande pensador grego; Vercingétorix, grande defensor da Gália, Julio César, grande consquistador romano. Todo o palácio exprime o misticismo pagão e primitivo que se encontra depois noutras correntes poéticas posteriores a Ferdinand Cheval, em particular na arquitectura vitalista, expressionista e surrealista, assim como na Arte Bruta.
A inscrição feita no final da construção prova o génio feito esforço e persistência: 1979-1912.10 000 dias, 93 000 horas, 33 anos de provações.
Mas, não contente, dois anos depois inicia a construção do túmulo, que so terminará oito anos a seguir.
É ele quem organiza as primeiras visitas ao seu Palácio Ideal, contratando mesmo uma criada para servir de cicerone. Manda fotografara obra e edita os postais. Necessita rentabilizar os gastos, pagar as dívidas. Quando morreu, em 1924, aos 88 anos, já tinha mesmo certificado a biografia oficial.

A partir de 1929 sairam diferentes publicações sobre o Palácio ideal de autores surrealistas ou próximo, como Jacques Bernard Brunius, Denise Bellon, Max Ernst, André Breton¿Picasso visitava amiúde o palácio Ideal e fez lá 12 desenhos em 1937, que hosje são propriedade da Galerie Suisse.
André Malraux, que era ministro francês da Cultura em 1964, declarou o Palácio Ideal monumento histórico, como único exemplo da arquitectura da Arte Naïf .
O Palácio Ideal do Carteiro Cavalo é produto do trabalho e génio de um homem excêntrico, um sonhador solitário que trabalhou de tal maneira que se espantava diariamente com o resultado do seu esforço, dessa estranha autenticidade que lhe advinha da observação da natureza.




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Segunda-feira, Maio 02, 2005


Numa conferência, em Lyon, França, sobre a globalização e os resultados do Forum de Portalegre, Brasil, os participantes acabaram a debater a questão do referendo à constituição europeia. É de sinalar que a maioria dos representantes presentes, associativos ou não era, de esquerda ou mesmo anarquista ... o único representante da direita liberal era o moderador.. Uma das ideias que ficou no ar é a de que a União Europeia utiliza este projecto de Constituição como uma espécie de legitimação das asneiras que fez ao longo dos anos. Segundo esta ideia, claro, todos os males socio-económicos na Europa advêm do mercado comum.
Esta ideia é tão boa ou tão má como qualquer outra, mas tem a qualidade de emanar de um pensamento lógico.
E, em França, o que tem acontecido até agora, publicamente, é a quase aflitiva falta de argumentos do Sim e da facção do Não.
Tarde e a más horas, o texto da Constituição foi divulgado em jornais gratuitos distribuidos no Correio, por exemplo,mas a curiosidade dos cidadãos é pouca. São os partidos políticos que estão a definir o desenho das respostas, são mesmo algumas facções dentro dos partidos políticos que estão a modelar as tendências do voto (por exemplo, alguns gaullistas nacionalistas e republicanos pensam tal e qual como os xenófobos da extrema-direita, e muitos socialistas recusam ligar-se a chefes de governos sociais-democratas como Tony Blair ou Gherhard Schröder). Os franceses não querem ser como todos os outros europeus, querem leis só para eles, independentemente de participarem ou não na construção política da Europa. Por exemplo, até agora e contrariamente às directivas europeias, o Estado continua a exigir que os cidadãos europeus residentes em França tenham uma carta de séjour válida no país. O que não é exigido aos franceses nos outros países da União. O comportamento francês em relação aos chamados países de lAutre Mer (Antilhas, Polinésia francesa, etc...países colonizados, portanto) e à atribuição da nacionalidade francesa aos emigrantes que conseguem chegar a esse outro território, tem de ser estudado. Os países terceiros que mantêm uma relação privilegiada com um dos parceiros até continuam a mantê-la no seio da União.
Mas os franceses estão inclinados para o veto da Constituição Europeia no dia 29 de Maio.
Por um lado, começam a perceber que, contrariamente ao que se diz, a rejeição do tratado constitucional não vai conduzir a uma espécie de caos institucional. A lei comum continua a emanar do Tratado de Nice, ratificado em 2001. Os que hoje, em França, mais mal dizem do Tratado de Nice, do governo ou do partido socialista francês, foram os que o negociaram, justificaram ou ratificaram.
Portanto, não haverá vazio institucional, mas algo parecido com o céu a cair na cabeça de Asterix (a banda desenhada, lembram-se? Os irreductíveis gauleses apenas temiam que o céu lhes caísse em cima); assim, haverá como que uma brecha no céu europeu que destabilizará o equilíbrio político. O que poderá conduzir a um imobilismo de longa data ou a uma renegociação salutar. E é verdade que a eventualidade de um fracasso não foi prevista pela convenção (é preciso dar o desconto: o presidente da comissão que o concebeu é francês (Valery Giscard D Estaing) nem pela Conferência intergovernamental.
No fundo, os franceses não percebem como é que a recusa da ratificação não provoca a renegociação do Tratado. Mas também não é certo que a Constituição possa vigorar sem um grande país como a França, que foi um dos principais países fundadores e um dos motores da construção da União.


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