Rotativas

Segunda-feira, Outubro 31, 2005


Agora, Berlusconi diz : "Nunca pensei que a guerra fosse a melhor maneira de democratizar um país e acabar com uma ditadura, mesmo que sanguinária. Tentei, muitas vezes, convencer o presidente dos Estados Unidos a não entrar em guerra".
Mas esta é uma declaração surpreendente da parte do mais feroz aliado de George W.Bush. Silvio Berlusconi, que a 21 de Julho de 2001 foi recebido pelo casal presidencial norte-americano no rancho do Texas, como o maior amigo; hoje, afasta-se de Bush quando ele está mais fragilizado pelo dossiê dos documentos falsos sobre o Iraque e o urânio do Níger.
Segundo a investigação do jornal italiano La Repubblica, o SISMI - serviços secretos italianos, está na origem dos documentos falsos sobre o urânio do Níger destinado ao Iraque. O falso correio estabelecido entre agentes iraquianos e membros do governo do Níger, escrito em papel oficial roubado da embaixada do Níger em Roma,(no fim de Dezembro de 2000), serviu para demonstrar que Saddam queria comprar 500 toneladas de urânio. O governo italiano desmente, mas o La Reppublica insiste.
Em Setembro de 2002, o chefe do SISMI, Nicolo Pollari, encontra-se, em Washington, com Stephen J. Hadley, vice-conselheiro para a Securança Nacional. A Casa Branca confirma mas justifica que a visita foi de cortesia.
Nessa altura, a 24 de Setembro, o governo britânico publicou um relatório sobre as armas de destruição em massa do Iraque. É nessas páginas que se torna pública a história do urânio africano.
No dia 28 de Janeiro, no discurso sobre o Estado da União, o presidente Bush acusou formalmente o regime de Saddam: "O governo britânico soube que Saddam Hussein procurou quantidades significativas de urânio em África".
Em Março de 2003 a CIA concluiu que os documentos que serviram de base ao relatório tornado público eram falsos. Um ano antes, a Central de Inteligência Americana tinha enviado o antigo embaixador Joseph Wilson a África para verificar a autenticidade das informações. E ele preveniu que elas não eram credíveis. Desencadeia-se, então o escândalo (Plamegate, Rovergate, Ciagate, Nigergate...) com a revelação do nome da mulher de Wilson (Valerie Plame) como a agente da CIA que o nomeara para ir ao Níger.
Com as revelações do La Reppublica sobre a falsificação de cartas, o FBI privilegia agora a pista italiana.




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Quarta-feira, Outubro 26, 2005


Os Repórteres sem Fronteiras, a advogada Hauwa Ibraim e o movimento Mulheres de Branco de Cuba ganharam o Prémio Sakarov 2005, atribuido pelo Parlamento
Europeu. O prémio, no montante de 50 mil euros, destina-se a consagrar personalidades ou instituições pela defesa da liberdade de consciência e dos direitos humanos.
A candidatura dos Repórteres Sem Fronteiras foi apresentada pelo Grupo Liberal e Democrático. Pretendeu reconhecer o trabalho de todos os que se batem pela
liberdade de imprensa.
Hauwa Ibraim é a jurista da Nigéria que defendeu as mulheres do seu país, acusadas de adultério, sob quem pendia a ameaça de pena de condenação à morte, por apedrejamento, conforme a Sharia, lei islâmica. A sua candidatura foi apadrinhada pelo Grupo Socialista.
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Já é conhecido por "Plamegate" ou "Rovegate" o escândalo judicial mediático que rebentou no seio da administração Bush e envolve o conselheiro presidencial Karl Rove. Ele terá sido o instigador ou mesmo autor da revelação da verdadeira identidade da mulher do ex-embaixador Joseph Wilson.
Em Fevereiro do ano passado, a CIA despachou para o Níger o diplomata aposentado Joseph Wilson, que fora embaixador em Bagdad, para averiguar se Saddam Hussein tentara comprar urânio nesse país africano. O desmentido de Wilson não impediu que Bush mencionasse o suposto negócio como evidência de que o Iraque produzia armas de destruição em massa - o pretexto para a invasão.
Quase meio ano depois, o diplomata acusou o governo de distorcer informações sobre o programa nuclear de Saddam "para exagerar a ameaça iraquiana".
Em represália, foi publicada a informação de que Valerie Plame, a sua mulher, trabalhava para a CIA.
O director do gabinete do vice-presidente Dick Cheney, Scooter Linny, é outro dos que serão ouvidos pelo Júri Federal de Investigação que prepara as acusações para a organização do processo relacionado com a espionagem na Casa Branca.
Nos Estados Unidos, identificar agentes da CIA é crime federal punido com 10 anos de prisão.


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Sexta-feira, Outubro 21, 2005


A minha entrevista a Nélida Piñon para a EuroNews



Nélida Piñon foi galardoada com o prémio Príncipe das Astúrias de Letras de 2005. Foi a primeira vez que um escritor de língua portuguesa ganhou este prémio. Nélida é professora catedrática, escritora e foi a primeira mulher presidente da Academia Brasileira de Letras. Os seus avós eram espanhóis, da Galiza e a cultura ibérica está presente na temática dos seus livros.Costuma dizer aos alunos que devem tratar o melhor possível a língua que herdaram pois não vêm inventar nada, mas estudar. Reconhece que recebe este prémio em nome de todos os escritores de língua portuguesa. O português é falado em oito países de quatro continentes por mais de 200 milhões de pessoas.

A EuroNews perguntou a Nélida se alguém lhe lançou um sortilégio ou se ela se tornou escritora, em criança, para cumprir um fado.

Nélida Piñon: "Eu prefiro acreditar que sou produto do sortilégio, do sortilégio humano de contar histórias. Mas eu também tenho a impressão de que fui predestinada para a literatura. Foi uma opção gratuita, espontânea, amorosa, porque, desde menina, achei que o mundo me tinha chegado através da aventura. Sempre fui aventureira e dizia para mim mesma que o meu sonho era sair de casa e jamais dormir uma segunda noite sobre o mesmo tecto. Ou seja, ser Simbad, realizando as sete viagens marítimas.

EuroNews: Lia muitos livros de aventuras?

NP: Muitos, porque o meu pai, muito generoso, abriu uma conta numa livraria no Rio de Janeiro, e eu ia lá e pegava os livros - ele também me oferecia muitos. De modo que os livros fizeram-me crer que a vida de escritor era essa vida fascinante, eu só queria ser escritora para ter essa vida. Não nasci para ser imutável, para viver no mesmo lugar, para não renovar o meu "stock magístico"... eu sou um ser em grande movimento. Todo este tempo tenho sustentado as transformações, sendo o produto típico da metamorfose humana.

EuroNews - Ser galega, ibérica, acompanhou o seu desenvolvimento intelectual ou contactou com essa realidade mais tarde?

NP: Muito cedo me descobri uma mulher de dupla cultura, dessa miscigenação extraordinária do imaginário, de fantasia; desde muito cedo eu percebia que, quando os meus coleguinhas comiam feijoada de feijão preto, eu comia polvo de oito pernas...você já pensou o que é um animal que rasteja no fundo do mar e que você come à sua mesa? Isso é um choque, um impacto na imaginação. E além do mais, eu percebia, por exemplo, que o suspiro da minha avó galega, amada, era um suspiro melancólico, diferente daqueles que eu captava no meu pais. E fui levada para a Galiza, para Espanha, com 10 anos, e aqui vivi dois anos. Eu falei o galego, o espanhol, desde muito cedo. Ao ter falado o galego, de algum modo, falei português do século XII.

EuroNews - A Academia Brasileira de Letras é o bastião da mestiçagem total da língua Portuguesa? Ou do português ibérico pronunciado em tom de samba?

Nélida Piñon: Veja só: nós temos um grande orgulho em sermos filhos dessa língua mágica com grande majestade que é a língua Portuguesa. Mas, evidentemente que essa língua portuguesa sofreu um banho, uma alma grande, uma mudança, a partir da saída dos 13 barcos do rio Tejo, lá na despedida do Rei D.Manuel. Ou seja, as correntes alísias que levaram os portugueses ao Brasil já começaram a fazer falar em gerúndio. De modo que se pode dizer que essa língua do Brasil é a língua portuguesa, a língua lusa, mas evidentemente nestes cinco séculos, sofreu uma grande mudança. Mas é uma língua castiça cheia de inventos verbais, não é? E para abarcar a realidade brasileira foi necessário criar palavras novas que explicassem quem nós somos.

EuroNews - Como se sente ao receber este prémio Príncipe das Astúrias?

NP: Foi a primeira vez que um escritor de Língua Portuguesa ganhou um prémio tão prestigiado no mundo, e tão respeitado. Para mim foi uma grande honra, fiquei muito comovida. E no dia em que me comunicaram eu pensei nos meus mortos, na minha família, nos seres que me formaram, que me ajudaram a entender o mundo. De modo que foi um momento de gratidão e de preito a quem realmente amei.

E: A sua Sherazade de Vozes do Deserto, inspirada nas Mil e uma Noites, tem uma mensagem para a Bagdade de hoje, ou vale apenas enquanto narrativa?

NP: A narrativa é fundamental para o ser humano. Você não pode chegar a casa levando apenas um pedaço de queijo e um pedaço de pão; você leva as histórias também. É o presente que você transporta para a sua família. Portanto, a arte de narrar é ilusória, mas é o que há de mais sólido em nós. E essa arte de Sherazade, da minha Sherazade, tem uma origem oral, graças à história de todos. Todos nós engrossamos o caldo, a sopa da narrativa; quantos mais ingredientes uma sopa tiver, pretéritos e passados, modernos, contemporâneos, mais fumegante será a sopa, mais generosa e apreciada será. A literatura tem um destino natural: narrar, captar as nossas histórias mais secretas.


Maria João Carvalho










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