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Terça-feira, Fevereiro 28, 2006
Enviado às
17:50
por Maria João Carvalho
Com a devida vénia, trancrevo o texto do Miguel Sousa tavares que circula na Net.
O cerco:
JÁ FALTOU mais para que um dia destes tenha de passar clandestinidade ou, no
mínimo, tenha de me enfiar em casa a viver os meus vícios secretos. Tenho um
catálogo deles e todos me parecem ameaçados:
* sou heterossexual «fulltime»;
* fumo, incluindo charutos;
* bebo;
* como coisas como pezinhos de coentrada, joaquinzinhos fritos e tordos em vinha
d'alhos;
* vibro com o futebol;
* jogo cartas, quando arranjo três parceiros para o «bridge» ou quando, de
dois em dois anos, passo à porta de um casino e me apetece jogar
«black-jack»;
* não troco por quase nada uma caçada às perdizes entre amigos;
acho a tourada um espectáculo deslumbrante, embora não perceba nada do
assunto; gosto de ir à pesca «ao corrido» e daquela luta de morte com o
peixe, em que ele não quer vir para bordo e eu não quero que ele se solte do
anzol;
* acredito que as pessoas valem pelo seu mérito próprio e que quem tem valor
acaba fatalmente por se impor, e por isso sou contra as quotas;
* deixei de acreditar que o Estado deva gastar os recursos dos contribuintes a
tentar «reintegrar» as «minorias» instaladas na assistência pública, como
os ciganos, os drogados, os artistas de várias especialidades ou os
desempregados profissionais;
* sou agnóstico (ou ateu, conforme preferirem) e cada vez mais militantemente,
à medida que vou constatando a actualidade crescente da velha sentença de
Marx de que «a religião é o ópio dos povos», licenciado em direito,
tornei-me descrente da lei e da justiça das suas minudências e espertezas e
da sua falta de objectividade social, e hoje acredito apenas em três fontes
legítimas de lei: a natureza, a liberdade e o bom senso.
Trogloditas como eu vivem cada vez mais a coberto da sua trincheira, numa
batalha de retaguarda contra um exército heterogéneo de moralistas diversos:
os profetas do politicamente correcto, os fanáticos religiosos de todos os
credos e confissões, os fascistas da saúde, os vigilantes dos bons costumes
ou os arautos das ditaduras «alternativas» ou «fracturantes».
Se eu digo que nada tenho contra os casamentos homossexuais, mas que, quanto à
adopção, sou contra porque ninguém tem o direito de presumir a vontade
«alternativa» de uma criança, chamam-me homofóbico (e o Parlamento Europeu
acaba de votar uma resolução contra esse flagelo, que, como está à vista,
varre a Europa inteira);
se a uma senhora que anteontem se indignava no «Público» porque detectou um
sorriso condescendente do dr. Souto Moura perante a intervenção de uma
deputada, na inquirição sobre escutas na Assembleia da República, eu disser
que também escutei a intervenção da deputada com um sorriso condescendente,
não por ela ser mulher mas por ser notoriamente incompetente para a função,
ela responder-me-ia de certeza que eu sou «machista» e jamais
aceitaria que lhe invertesse a tese: que o problema não é aquela deputada ser
mulher, o problema é aquela mulher ser deputada; se eu tentar explicar por que
razão a caça civilizada é um acto natural, chamam-me assassino dos pobres
animaizinhos, sem sequer quererem perceber que os animaizinhos só existem
porque há quem os crie, quem os cace e quem os coma;
se eu chego a Lisboa, como me aconteceu há dias, e, a vinte quilómetros de
distância num céu límpido, vejo uma impressionante nuvem de poluição sobre
a cidade, vão-me dizer que o que incomoda verdadeiramente é o fumo do meu
cigarro, e até já em Espanha e Itália, os meus países mais queridos, tenho
de
fumar envergonhadamente à porta dos bares e restaurantes, como um cão tinhoso;
enfim, se eu escrever velho em vez de «idoso», drogado em vez de «tóxico
dependente», cego em vez de «invisual», preso em vez de «recluso» ou
impotente em vez de «portador de disfunção eréctil», vou ser adoptado nas
escolas do país como exemplo do vocabulário que não se deve usar. Vou
confessar tudo, vou abrir o peito às balas: estou a ficar farto desta gente
deste cerco de vigilantes da opinião e da moral, deste exército de eunucos
intelectuais.
Agora vêm-nos com esta história dos «cartoons» sobre Maomé saídos num
jornal dinamarquês. Ao princípio a coisa não teve qualquer importância: um
«fait-divers» na vida da liberdade de imprensa num país democrático. Mas
assim que o incidente foi crescendo e que os grandes exportadores de petróleo,
com a Arábia Saudita à cabeça, começaram a exigir desculpas de Estado e a
ameaçar com represálias ao comércio e às relações económicas e
diplomáticas, as opiniões públicas assustaram-se, os governantes europeus
meteram a viola da liberdade de imprensa ao saco e a srª comissária europeia
para os Direitos Humanos (!) anunciou um inquérito para apurar eventuais
sintomas de «racismo» ou de «intolerância religiosa» nos «cartoons»
profanos.
Eis aonde se chega na estrada do politicamente correcto: a intolerância
religiosa não é de quem quer proibir os «cartoons», mas de quem os publica!
A Dinamarca não tem petróleo, mas é um dos países mais civilizados do
mundo: tem um verdadeiro Estado Social, uma sociedade aberta que pratica a
igualdade de direitos a todos os níveis, respeita todas as crenças, protege
todas as minorias, defende o cidadão contra os abusos do Estado e a liberdade
contra os poderosos, socorre os doentes e os
velhos, ajuda os desfavorecidos, acolhe os exilados, repudia as mordomias do
poder, cobra impostos a todos os ricos, sem excepção, e distribui pelos
pobres. A Arábia Saudita tem petróleo e pouco mais: é um país onde as
mulheres estão excluídas dos direitos, onde a lei e o Estado se confundem com
a religião, onde uma oligarquia corrupta e ostentatória divide entre si o
grosso das receitas do petróleo, onde uma polícia de costumes varre as ruas
em busca de sinais de «imoralidade» privada, onde os condenados são
enforcados em praça pública, os ladrões decepados e as «adúlteras»
apedrejadas em nome de um código moral escrito há quase seiscentos anos. E a
Dinamarca tem de pedir desculpas à Arábia Saudita por ser como é e por
acreditar nos
valores em que acredita?
Eu não teria escrito nem publicado «cartoons» a troçar com Maomé ou com a
Nossa Senhora de Fátima. Porque respeito as crenças e a sensibilidade
religiosa dos outros, por mais absurdas que elas me possa parecer. Mas no meu
código de valores - que é o da liberdade - não proíbo que outros o façam,
porque a falta de gosto ou de sensibilidade também têm a liberdade de
existir. E depois as pessoas escolhem o que adoptar. É essa a grande
diferença: seguramente que vai haver quem pegue neste meu texto e o deite ao
lixo, indignado. É o seu direito. Mas censurá-lo previamente, como alguns
seguramente gostariam, isso não.
É por isso que eu, que todavia sou um apaixonado pelo mundo árabe e
islâmico, quanto toca ao essencial, sou europeu - graças a Deus.
Pelo menos, enquanto nos deixarem ser e tivermos orgulho e vontade em continuar
a ser a sociedade da liberdade e da tolerância
por Miguel Sousa Tavares
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Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006
Enviado às
20:50
por Maria João Carvalho
Coube-me noticiar, rever e analisar o caso de Rosário, em Espanha - chamemos-lhe assim, a mulher de cerca de 40 anos que foi morta por três monstros de idade menor, numa entrada de um distribuidor de dinheiro. O crime foi filmado. Ela, uma ex-trabalhadora da Caixa em situação de desemprego e depressão, classe média-alta em abandono existencial, acabou por ceder aos pedidos dos jovens que pediam para abrir a porta do hall da caixa automática - que ela sabia como trancar. Abriu e foi espancada, primeiro. Atearam-lhe o fogo, depois. Fiquei mal disposta durante dois dias..
Em Portugal, o prostituto e toxicodependende de 45 anos que foi assassinado por um grupo de 14 adolescentes (dos 13 aos 16 anos) não teve direito a câmaras. Acabou num fundo de um poço de um prédio em construção e as pobres das criancinhas estão nas Oficinas de S. José, uma instituição do Estado. Parece que o mais velho, de 16 anos, como diz que tentou travar os ímpetos das criancinhas assassinas, poderá ficar de fora, ao abrigo de um qualquer programa de testemunhas que não existe...
Eram 14. A pontapetear, a cuspir, a bater, a ofender um ser humano desprotegigo, fragilizado, horrorizado, a morrer sem perceber porquê.
É Portugal, a lei e o ser português.
Amanhem-se.
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Domingo, Fevereiro 19, 2006
Enviado às
21:42
por Maria João Carvalho
No tornozelo pára o teu beijo
quando grito
e da boca me saiem borboletas
quero sempre dizer
e tenho medo que as palavras
me saiam à laia de muletas.
Dói-me a borbulha do champanhe
no céu da boca...
o caviar na ponta dos dedos
que chupo nas pequenas tostas.
Eu trouxe mortos para o Happy Hour
Mutilados para pôr às costas.
MJC
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Enviado às
20:32
por Maria João Carvalho
Quando o sol
estrangula de brilho
e o ar entorpece
algo encalhou
entre as pedras
onde o mar rebenta
o coração
que pulsa a vida.
Aquela pérola de mar
em que todas as lágrimas
se fundiram
reflecte e multiplica
as pegadas rumo ao Céu.
MJC
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Enviado às
20:26
por Maria João Carvalho
Luz da LUZ
Pedra a pedra
o arco a ogiva
catedral imensa
à luz que flui
e o homem centro
agreste intenso
uma a uma
as pedras rui
constrói destrói
cresce decresce
fere mata
depressa a peste
Arquitecto é o sonho
a quem a vida
desacontece
aqueles que ama...
e persiste
a artimanha da aranha
:mais sonho tece
ogiva ergue a chama
MJC
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Enviado às
20:01
por Maria João Carvalho
O corpo da Carmelita Lúcia voltou à Cova da Iria. Como se voltasse à Luz depois de uns tempos a trabalhar pelo Bem de Todos na clandestinidade. Bem haja quem nos quer bem. E possamos, também, fazer algo...
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Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006
Enviado às
22:23
por Maria João Carvalho
O que se passou hoje em Portugal, coma apreensão de discos duros, disketes, e demais material informático em casa de um jornalista e na sede o jornal 24 horas, é absolutamente dantesco, surrealista. Não acredito que se esteja a passar num país governado por socialistas, mas onde não se compreende bem se a Justiça é independente do poder político e se há ou não liberdade de informar (e em que termos é esta exercida).
Espero que esta não seja uma busca que invalide, em forma, o julgamento que está em curso - é preciso encontrar, não só os culpados mas quem compactua, silenciando. "Torço" para que os discos duros não sofram nenhum dano irreversível. Desejo que o Sindicato assista bem o nosso camarada de trabalho. Porque, no fim, o que interessa é que seja feita justiça às muitas dezenas de crianças violadas e abusadas ao longo de anos numa instituição estatal, onde deviam ter sido protegidas. Este julgamento da Casa Pia está a demonstrar que os portugueses estão certos na sua desilusão em relação à justiça: demora muitos anos a formalizar-se e perde, depois, a sua eficácia. Quem pagará, com prisão e vergonha pública, a humilhação daquelas crianças que hoje são homens marcados? Não me parece que ... bem...fica a cada um a reflexão final.
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Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006
Enviado às
00:18
por Maria João Carvalho
Pronuncia-se Uã mas escreve-se Oingh, o que para um português equivale ao som emitido por um suíno...mas, indo em frente, os franceses entendem-se a eles mesmo e o resto do mundo que os entenda se faz favor.
Fica no Beaujolais e é uma aldeia de pedra dourada com mais artistas por metro quadrado do que a maior parte das capitais cosmopolitas por esse mundo fora. Escultores, pintores, criadores de moda e ... muitos gatos nas maravilhosas soleiras de pedra e madeira. Há mesmo uma tabuleta que diz: Cuidado com o gato.
A paisagem de vales e montanhas em que serpenteiam as vedações das vinhas, debroada pelos pastos das vacas e burricos, é sempre pontuada pelas torres das igrejas nos montinhos de casario de pedra. Apesar dos muitos quilómetros das vinhas e das caves abertas dos produtores, sempre simpáticos, confesso: não sou adepta... apesar de confessar alguma ignorância enófila quanto a esta região.
Vale a pena conhecer.
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Domingo, Fevereiro 12, 2006
Enviado às
00:45
por Maria João Carvalho
A França profunda, histórica, rural...tem sido uma surpresa.
Hoje estive na vila natal de Louis Pasteur, o génio de vários talentos (pintava, por exemplo, e muito bem), que estudou as doenças das vinhas, dos porcos, das galinhas...enfim, fez a extraordinária descoberta da vacina da raiva. O seu pai, depois das guerras napoleónicas, aprendeu a arte de curtidor de peles, e instalou-se na mais antiga rua de Dole (é perto de Dijon) e data de 1287 (era a rua dos artesãos: curtidores de peles, moleiros e ourives), numa casa que dava (e dá) para o canal (a água era essencial para tratar as peles). O Museu de Pasteur, aí criado, é excelente, como se podia esperar de uma associação de gente amante da cultura e da ciência...Lá, descobri uma máquina criada pelo seu fotógrafo, e apresentada em 1902, que nunca me passou pela cabeça descobrir! Tem um nome em francês sem tradução--- e, desculpem-me, mas fiquei tão maravilhada que esqueci todas as obrigações de memória objectiva! Bem, o vanguardista da altura pôs-se em acção no meio das ruas em que pululavam as gentes de todas as classes e idades e sexos e religiões , fotografando-as (imagine-se!) em movimento.
E o mais incrível é que, na caixa mágica em que rodei o manípulo, as fotos do dia da inauguração da estátua de Pasteur, em Dole, vi toda aquela multidão de trisavós em jovem e a três dimensões. Nas ruas, vi quem via um horizonte inverso (não o meu, mas o do fotógrafo) e quem surgiu espreitando do lado de uma dama mais snob, e vi os pormenores dos chapéus das damas, tirados de trás...coisas absolutamente incríveis em relação aos pormenores dos trajes dos soberbos militares da época, com espadas que forçavam a não tocar o chão...as fanfarras na praça principal...a multidão, sempre a três dimensões... como se a sépia e a imagem nos forçassem a mergulhar em 1902, a imaginar o frio que fazia na altura, o provável sol (as damas vestiam apenas camisas rendadas e saias, assim como chapéus, já de palha e flores. Claro que, "le soir", os cavalheiros de bem da cidade já passeavam, de braço dado, de fraque e cartola e charuto bem espetado entre o indicador e o médio bem apontados para o lado direito da imagem e esquerdo do incrível fotógrafo.
Nunca vi nada assim. De 1902.
Também me chocou que a família de Pasteur acabasse com o seu neto (médico, cientista, político condecorado por Gaulle e que morreu sem deixar herdeiros, em 1986).
Numa vila próxima, Arbois, para onde se mudou a família Pasteur quando o jovem Louis tinha cinco anos de idade (a melhor casa que dava para o canal, claro), há uma estátua que cita uma última frase do génio: "aos meus pais e aos meus entes queridos mortos" (o significado é este, não sei se a reproduzo correctamente). Isto porque morreram ´três irmãs de Louis em pequenas (aos cinco aninhos) e os outros não tiveram descendência. Talvez se não tivessem morrido, o jovem Louis não se interessasse tanto por micróbios e germes e vírus.
Já agora: foi ele que começou a recusar receber o pão francês mão na mão e a pedir o papel com que, ainda hoje, se enlaça a famosa baguete. Claro que também não lhe interessavam os apertos de mão...
Já agora: todas as vilas da região (no Jura) são históricas, com museus absolutamente incríveis nos sítios mais improváveis, de pedra (inteiramente) e, na maioria, com cidadelas absolutamente medievais ou, no mínimo, renascentistas. Nas que são mais antigans há sempre os vestígios das igrejas romanas e de outras (des)construções do seu império.
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Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006
Enviado às
15:26
por Maria João Carvalho
A maioria dos monárquicos não soube que o presidente da Câmara de Lisboa ia fazer justiça à memória do Rei D.Carlos e do Príncipe D.Luis, assassinados há 98 anos em Lisboa. Mas foi lindo de ver as imagens (TVI) da cerimónia:
Fica aqui a notícia da Lusa/Sic: cerca de duas centenas de monárquicos assistiram à cerimónia que contou com a presença do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carmona Rodrigues, do Duque de Bragança, Duarte Pio, e do presidente da Real Associação de Lisboa, Ricardo Abranches.
No final do descerramento da lápide, os monárquicos, alguns deles com a bandeira da monarquia, bateram palmas e gritaram várias vezes "Viva o Rei!".
"O povo de Lisboa fez as pazes com a sua memória ao lembrar dois patriotas mortos neste local há 98 anos", disse D. Duarte, adiantando que a homenagem "foi justa e simbólica".
Carmona Rodrigues destacou que se "fez a justa homenagem" a um ¿grande homem¿ que o país perdeu. Foi "um momento de grande importância para a história de Lisboa e de Portugal", sublinhou.
A 1 de Fevereiro de 1908, o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe foram assassinados em pleno Terreiro do Paço, deixando o trono nas mãos do jovem D. Manuel II, sem capacidade nem margem de manobra para gerir uma situação política explosiva que culminaria com a queda da monarquia e a implantação da República a 5 de Outubro de 1910.
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Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006
Enviado às
19:59
por Maria João Carvalho
[1.2.06 5:48 PM | MARIA JOÃO CARVALHO]
A situação no Médio Oriente é preocupante mesmo para os palestinianos. Principalmente para as mulheres que não querem andar vestidas como um saco para não perturbar o fervor dos fundamentalistas machos ou menos machos. Que mudanças serão impostas pelos radicais que se comportam nos funerais dos seus assassinos como autênticas bestas programadas para odiar? A sociedade palestiniana é, por natureza, laica.
Se por um lado a população aprovou nas urnas a luta do Hamas contra a corrupção que grassa na Autoridade Palestiniana e o seu papel na assistância social, por outro teme a sua doutrina assente na charia, a lei islâmica e o propósito de fazer das mulheres "boas muçulmanas"...
Na rádio "Voz da Juventude" de Gaza, ligada ao Fatah, o director Abd El-Hakeem Awad, também se interroga sobre a nova era nos territórios palestinianos, mas assegura que vai trabalhar pelo esclarecimento da opinião pública. "Vamos esclarecer as contradições do Hamas no passado e no presente, assim como dentro da Autoridade Plestiniana. Essa é a missão dos Media e dos que procuram um ângulo original de abordagem", afirma.
Depois da campanha eleitoral, o Hamas concluiu que o futuro em termos de aceitação pública seria mais fácil com a ajuda de um assessor de imagem. Melhor, de um director de campanha e imagem e...tudo o mais. Encontrou Hamas Nashat Aqtash, a quem incumbiu de provar que o Hamas é uma organização pacífica que foi forçada a lutar e que os seus membros não gostam de matar. Até amam a vida.
O director de imagem reconhece que o Hamas quis mudar o discurso destes últimos dois anos, adaptando a linguagem cultural própria às exigências internacionais.
Por enquanto, o Hamas não pretende impôr a lei islâmica...diz. Fez saber que lhe basta que todos os palestinianos creiam em Deus...mas o que assusta é precisamente o significado disto. São eles que têm "as virgens como prémio" no paraíso por se fazerem explodir como "mártires", destruindo o máximo de vidas humanas em seu redor.
Entretanto, a representante da representante da Autoridade Palestiniana na UE, perdeu o medo de "chamar os seus (porque é ela que assim pensa) bois pelos nomes" e disse autênticas barbaridades (notam-se as ameaças veladas à Europa) em entrevista ao camarada Sergio Cantone, nosso correspondente em Bruxelas, que passo a transcrecrever:
A ajuda europeia aos palestinianos está sujeita a condições. Perante o dilema ue surgiu com a vitória do Hamas, e do facto de, desde 2003, constar na lista das organizações terroristas da União Europeia, os 25 impõem ao Hamas três condições: recusa da violência, reconhecimento de Israel e do processo de Oslo.
Mas, a representante da Autoridade Palestiniana na União Europeia, Leila Shahid, defende que os europeus não têm nenhum interesse em cortar relações com os palestinianos.
"A complexidade da situação exige que os europeus vejam para lá do facto que há uma organização terrorista que está na lista negra e com a qual não podem negociar. Eles tiveram o mesmo problema com o Hezbollah no Líbano, têm o mesmo problema com o Estado de Israel...este também executa acções de terrorismo de Estado quando assassina civis palestinianos ou quando recusa categoricamente reconhecer aos palestinianos o direito de viver num Estado".
Sergio Cantone para a EuroNews: E quanto ao risco da instrumentalização da ajuda europeia para a islamização da sociedade palestiniana defendida pelo Hamas?
O Hamas não é o mesmo que os talibans, não temos madrassas no sentido taliban, a sociedade palestiniana não é uma sociedade fundamentalista, é de maioria laica. Seria uma surpresa saber quantos cristãos votaram Hamas para sancionar o Fatah, que em 10 anos, não conseguiu cumprir o que prometeu, ou seja, a paz e um Estado palestiniano. Assim, votaram pela alternativa no governo".
"Penso que podemos ter, a União Europeia e o Quarteto, uma política gradual, que possa dar ao Hamas uma porta de saída para evoluir no plano político, ideológico, se houver um verdadeiro diálogo. Se chegarmos à ruptura, os palestinianos têm de fazer uma escolha terrível, mas os israelitas e os europeus também".
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