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Terça-feira, Fevereiro 27, 2007
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20:11
por Maria João Carvalho
A Sérvia não cometeu genocídio, segundo o Tribunal da ONU, que assim obriga ao luto a humanidade. As instituições internacionais, masi uma vez, falham a missão.
Srebrenica será sempre o símbolo da perseguição sérvia dos muçulmanos na Bósnia. Mas apenas Srebreniça. Assim decidiu o Tribunal Internacional de Justiça, a mais alta instância judicial das Nações Unidas.
O massacre de cerca de 8000 muçulmanos em Julho de 1995 depois da tomada do enclave sob protecção dos capactetes azuis foi um genocídio. O Tribunal Penal para os Crimes da ex-Jugoslávia também já o tinha considerado.
No entanto, não se estabeleceu ter havido limpeza étnica a grande escala, violações como estratégia, incêndio de aldeias, igrejas e hospitais, massacres noutras regiões. Não lembrou a constante propaganda nacionalista nos Média sérvios durante a guerra, não lembrou as cartas que as crianças das famílias separadas enviaram às rádios locais para obter resposta às suas dúvidas inqualificáveis: "porque é que o papá começou a odiar a mamã? Por ela não ser da mesma etnia?"
Uma activista sérvia dos direitos humanos lembra que todos sabemos o que aconteceu na Bósnia Herzegovina. Dê-se-lhe o nome de genocídio ou outra coisa qualquer, todos sabemos que não haveria crimes na Bósnia se não tivesse havido envolvimento directo da Sérvia e das forças regulares no planeamento, organização e execução desses crimes.
Sarajevo, que apresentou queixa em 1993, não tem direito às indemnizações exigidas.
Mas, na verdade, nem este veredicto nem nenhum outro poderá algum dia trazer serenidade a um país que ainda não curou as feridas de guerra.
O director do centro europeu de estratégias de integração receia que não haja qualquer consequência positiva, "não só por causa da insatisfação de uma das partes mas por causa das tensões internas na Bósnia Herzegovina."
O fundador do Comité de Helsínquia para os Direitos Humanos na república sérvia da Bósnia, foi assassinado com tiros de arma automática à porta de casa, em Sarajevo na passada quinta-feira.
O TIJ pediu a Belgrado que tome medidas imediatas para entregar Ratko Mladic, ex-líder militar servo-bósnio ligado ao massacre de Srebrenica ao TPI em Haia para responder por crimes de guerra.
Radovan Karadzic, ex-presidente dos sérvios na Bósnia também é um dos criminosos de guerra mais procurados pela Justiça Internacional.
Se o veredicto condenasse a Sérvia, Belgrado ficaria numa situação complicada. Pelo menos, reconheceu-se que nada fez para impedir os crimes cometidos.
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Segunda-feira, Fevereiro 19, 2007
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18:22
por Maria João Carvalho
A visita do primeiro-ministro esloveno a Sarajevo foi aproveitada por dezenas de manifestantes que, durante a guerra dos Balcãs, confiaram dinheiro à banca eslovena e nunca mais lhe viram a cor.
Os manifestantes que, em 1992, entregaram as economias ao Banco Ljubjanska da Eslovénia, no valor de 135 milhões de euros (na época, 270 milhões de marcos alemães) destruiram vários produtos eslovenos com a mensagem para a delegação oficial levar o lixo de volta à origem.
Há mais de uma década que os governos esloveno e bósnio tentam resolver o problema surgido com a falência do banco. O problema deu azo a 4000 queixas de cidadãos bósnios contra a Eslovénia no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.
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Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007
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18:15
por Maria João Carvalho
A primeira clínica espanhola para realizar abortos vai abrir no próximo mês, em Lisboa, depois de, há um ano, ter realizado vários contactos com a Direcção-Geral de Saúde. Entretanto, outra clínica, de Madrid, mostrou interesse em abrir uma unidade em Portugal.
A primeira clínica espanhola vocacionada para realizar abortos vai abrir no próximo mês, em Lisboa, após o «sim» ter vencido no referendo à despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) e depois de já ter realizado vários contactos com a Direcção-Geral de Saúde.
«A clínica está na última fase de construção e esperamos que esteja terminada em Março», altura em que deverá abrir, anunciou a directora da clínica dos Arcos, esta segunda-feira, em declarações à TSF.
Yolanda Ernandes adiantou que a clínica, situada na Avenida da Liberdade, no centro de Lisboa, vai fazer cirurgia ambulatória e acrescentou que está receptiva a negociar com o Serviço Nacional de Saúde a assinatura de um protocolo para fazer abortos, tornando a clínica dos Arcos numa unidade convencionada.
A médica garantiu tambémque estabeleceu os primeiros contactos com a Direcção-Geral de Saúde há um ano e que, actualmente, só lhe faltam as licenças de funcionamento.
Yolanda Ernandes disse ainda que todos os funcionários da clínica serão portugueses e que espera receber anualmente mais de quatro mil mulheres, o número de portuguesas que se tem deslocado por ano às clínicas de Badajoz e de Mérida para realizar abortos.
Entretanto, também a clínica espanhola El Bosque mostrou interesse em abrir uma unidade em Portugal. Esta entidade dedicada à IVG está sedeada em Madrid e costuma publicar anúncios nos jornais portugueses.
«Estamos interessados em abrir uma clínica em Portugal, mas temos de ver primeiro quando poderemos fazê-lo», afirmou Júlia Acosta, responsável da clínica El Bosque, procurada anualmente por cerca de 480 portuguesas.
No referendo de domingo sobre a liberalização da IVG até às 10 semanas, o «sim» venceu com 59 por cento dos votos, enquanto a abstenção se situou nos 56,4 por cento.
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Terça-feira, Fevereiro 06, 2007
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17:18
por Maria João Carvalho
Do meu amigo Eduardo Aroso, recebi a homenagem a Fiama Hasse, que divulgo e subscrevo:
Fiama Hasse de Pais Brandão e Os Hinos à Noite de Novalis
Modesta Homenagem em Breve Apontamento
Já Eugénio de Andrade escrevera que a poesia é inimiga do poético. Nesta aparente contradição se compreende a relação de Fiama com o público, no que toca à arte do verso. Preferiu a poesia ao palco, não no sentido do vero teatro, no qual também deixou obra de registo, mas no de uma atitude em que a poesia se basta a si mesma, e nisto tem a perene vitalidade que dispensa modismos de adrenalinas injectadas a gosto. Tão universal no princípio como no seu último verso, que fica sempre como mote para um recomeço de um breve fechar de pano. A vida bastou-lhe como afirmação.
Há todavia em si uma densa sensibilidade lunar e uma outra, solar, no mistério que é sempre a alma de um poeta. «...O Sol/ que perpassa em cumes e em cristas/ nasce nas arestas serranas do nascente/ e vai até ao mar em sete versos».
No sentir apolíneo poderíamos dizer que foi socialmente vigilante, por exemplo, em Barcas Novas, também, é certo, escrito numa idade em que o sangue está mais ligado ao corpo do que ao espírito. Recordamos o seu poema que Adriano Correia de Oliveira cantou (tivemos o privilégio de o ter acompanhado à ¿viola¿ uma única vez) com aquela voz de trovador, inquieta, inocente e simultaneamente doída, festiva e dolente. «São de guerra as barcas novas/ Sobre o mar com a sua guerra/ Barcas novas levam guerra/ E as armas não lavram terra». Ígnea forma de vida que levava Fiama a sentir as barcas enquanto nota dissonante no status quo de então; embarcações que anunciavam já outro manhã.
Mas é porventura o aspecto lunar (veja-se um dos seus primeiros poemas: «Mulher/que não canta/entretanto/cantá-la-emos») no mais fecundo sentido do termo, na acepção que há no Caos como possibilidade infinita e actuante, reorganizador de todas as forças, que podemos descortinar uma maternidade da sua palavra poética sustentadora e sobretudo capaz de todas as metamorfoses de vida. Se pensarmos em «afinidades electivas» como diria Goethe, dir-se-ia que Fiama Hasse de Pais Brandão, no seu mais recôndito interior foi atraída a uma das obras-primas de Novalis, Os Hinos à Noite, páginas de um romantismo filosófico amadurecido que ainda hoje preenchem o nosso quotidiano, quando encetamos a fuga possível, como num jogo do tempo a duas dimensões. E se, na versão dessa obra para a Língua Portuguesa, a pitonisa da palavra não plasmou, obviamente, qualquer ideia ou conteúdo, o certo é que a prosódia rítmica e a musicalidade que imprimiu ao texto vertido para o nosso idioma, nos faz acreditar que a poetisa, ela própria, comunga dessa poesia medular (por isso mesmo redentora) que há na obra de Novalis. Páginas de rara sensibilidade, numa forma que se furta à vulgar classificação da chamada prosa poética, ou poesia na extensão de certa prosa, epítetos que só condicionam a unidade singular que há no sentimento do poeta alemão, e que uma alma portuguesa transfigurou pela sonoridade de uma língua carregada de ancestralidade galaica.
Noite como redenção, desde logo, dos movimentos cíclicos dos ditos fenómenos naturais; noite na sua aparente quietude, passividade e escuridão. Porque a chave, se procurada, só na lei cósmica das alternâncias. Lemos no primeiro trecho que «A luz descerrou noutros espaços os seus álacres panais. Pois não havia ela de regressar para junto dos seus filhos, que a esperavam há muito com a fé da inocência?»
É sabido que uma desmesurada e constante actividade de permanente ritmo diurno acabaria com o que resta de uma forma de atenção unitiva à vida (uma outra, hoje, também estranha forma de vida) que se extingue na proporção directa da preocupação com lucros e bens apenas materiais. Este estado do coração e um certo estado da nação não permitem o necessário distanciamento para a visão fulgurante e serena da vida. «Mais celestes do que aquelas estrelas cintilantes nos parecem os olhos infinitos que a Noite em nós abre (...) Glória à rainha do mundo, à grande mensageira de mundos sagrados, a do amor extasiado ¿é ela que te envia até mim ¿ doce amada ¿ amável sol da noite ¿ eis que estou desperto ¿ porque sou teu e sou meu ¿ revelaste- me a Noite como Vida ¿ tornaste-me humano ¿ devora de ardor espiritual o meu corpo para que, etéreo, eu possa misturar-me contigo mais intimamente, e seja então eterna a nossa noite de bodas» (Hinos à Noite).
O incidente (não acidente) que ocorreu no dia 19 de Janeiro com Fiama Hasse de Pais Brandão não é mais do que aquilo a que Pessoa chamou «a curva da estrada». Ele traz-nos o convite para uma nova leitura de Os Hinos à Noite, cuja primeira tradução, para a Assírio & Alvim, data de Setembro de 1988. Leitura apetecida à medida que a pujança solar, no calor externo dos dias, nos vai cobrindo da proximidade de nova primavera e depois verão. Aí se verá a noite como renovadora das forças julgadas incapazes, dos propósitos que se tornam exangues pelos venenos diários engajados. Aí se verá a noite plena (comungaremos também com Álvaro de Campos), a mãe universal a serenar todos os actos desvairados, a encorajadora de todos os propósitos apagados. O relento nocturno é o sémen de recomeçar. É Fiama que no-lo diz num dos seus poemas: «Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida/ pelo movimento, pela forma, pelo nome,/voltamos ao zero irradiante...»
Já que a mão delicada de Fiama nos trouxe Novalis, na doce penumbra da Língua Portuguesa, então leiamos um pouco mais de Os Hinos à Noite: «Retirou-se a alma do mundo com todas as suas potências, para mais profundo santuário, para mais elevada sede do espírito ¿ para aí reinar até romper o diurno esplendor do mundo. Não mais a Luz foi morada dos deuses ou indício celeste ¿ sobre si lançaram o véu da Noite. A Noite era o poderoso seio das revelações ¿ e a ele regressaram os deuses ¿ nele se deixaram adormecer, para se lançarem em novas e magníficas formas, sobre o mundo transmudado».
Eduardo Aroso
23-1-07
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