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11:17
por Maria João Carvalho
Líder do Hamas abre-se ao mundo - Entrevista de Ismail Haniyeh a Abdel Azim Mohamed da Euronews (tradução e adaptação de MJC para português)
O líder do movimento palestiniano Hamas, Ismaïl Haniyeh, desalojado do posto de primeiro-ministro pelo presidente Mahmoud Abbas,numa entrevista exclusiva à EuroNews, lança um apelo de cessar-fogo de longa duração a Israel e pressiona a Europa a desempenhar um papel mais activo para resolver o conflito israelo-palestinino.
EuroNews - O primeiro-ministro israelita, Ehud Olmert, afirmou estar disposto a negociar se o Hamas aceitar as condições do Quarteto e o direito a Israel existir.
Ismaïl Haniyeh : Olmert comunicou o mesmo à OLP. Não se avançou nada nos últimos 15 anos e as aspirações dos palestinianos não tiveram resposta.
EuroNews - Suponhamos que Olmert esteja a ser sincero, desta vez...
IH - Entre a realidade e as aspirações vai alguma distância...
EN - Se Israel oferecer uma mão ao Hamas e o Hamas desistir da violência, o Hamas reconhece Israel?
IH - A posição israelita é arrogante. Os israelitas estão sempre a impôr condições, e elas são injustas.
EN - Há alguma possibilidade de reconhecer Israel?
IH - Antes do mais, que Israel reconheça o Hamas.
EN - Estamos perante um dilema, não é?
IH - Israel é um país ocupante de um território do Estado palestiniano. O normal é que o nosso povo readquira os seus direitos e Israel os reconheça.
EN - Será que vai chegar o dia em que o Hamas estende a mão a Israel?
IH - O Hamas sempre disse que estava pronto a estabelecer um trégua de 10 ou 20 anos até os palestinianos recuperarem as fronteiras que tinham antes de 1967.
EN - Nesse caso, nesse período, haverá negociações durante 20 anos?
IH - Se Israel aceitar a criação de um Estado palestiniano, e se demonstrar empenhamento num cessar-fogo, então, de certeza, encontraremos meios para tornar isso possível.
EN - Sem condições à priori, como dizem os israelitas?
IH - Não vamos repetir experiências feitas. No passado, as negociações israelo-palestinianas não deram frutos. Aprendemos com isso, não vamos repetir os erros.
EN - Ouviu-se falar em contactos secretos entre Israel e o Hamas. Isso é verdade?
IH- Não tenho qualquer informação sobre contactos secretos entre o movimento e Israel.
EN - Falemos de paz... quem está a arruinar as hipóteses de paz?
IH - Os israelitas.
EN - Mas, há alguém do lado palestiniano a boicotar a hipótese de paz?
IH - Claro que não. Os palestinianos vivem sob ocupação e lutam pela liberdade.
EN - EStá a tentar alguma aproximação a Washington?
Ismaïl Haniyeh : Nós gostaríamos, ams era preciso que Washington também quisesse.
EuroNews - : Se Washington se aproximasse, convidaria a Secretária de Estado Condoleeza Rice a vir Gaza ?
Ismaïl Haniyeh : Quem quiser visitar Gaza é benvindo. Isso depende dos americanos. Até agora, a administração americana não tem respeitado o resultado das nossas eleições democráticas e vontade do povo palestiniano.
EuroNews : Fala-se muito de isolamento do Hamas. Quem ´´e que está isolado? O Movimento Hamas ou a Autoridade Palestiniana?
Ismaïl Haniyeh : O movimento Hamas nunca estará isolado. É um movimento com raízes na realidade palestiniana e nas consciências das populações árabe e islâmica. Tudo o que se diz sobre o isolamento do Hamas é pura fantasia.
EuroNews : Há esperança de que o soldado israelita Gilaad Shalit seja libertado através da sua mediação, como no caso de Alan Johnston ?
Ismaïl Haniyeh : O caso de Gilaad Shalit está nas mãos das autoridades egípcias, e elas continuam a negociar com Israel. Como palestinianos, queremos chegar a um acordo digno que ponha um fim ao sofrimento do nosso povo detido nas prisões israelitas.
EuroNews : Voltemos às críticas que o atingem. Por um lado, acusam-no de não lutar contra a corrupção. E, por outro, a chegada do Hamas ao poder, juntou mais problemas aos que havia antes.
Ismaïl Haniyeh : Não é verdade. Respondo a todos os que fazem essas acusações, que me dêem a prova de que têm razão. Iniciámos os processos judiciais de corrupção que vinham de trás e que os grandes senhores da oposição e da guerra, dos serviços de segurança e de alguns centros de poder palestinianos não estavam interessados em resolver.
EN - Em Ramallah, também o acusam de estar a abrir as portas a alguns elementos da Al Qaida.
IH : Essas alegações são todas insignificantes e não são dignas de resposta.
EN - Massimo d'Alema afirmou que, por uma questão de necessidade, deviam ser abertos canais de diálogo com o Hamas - como reage a isto?
IH - Esta, é uma voz muito racional. Considera o equilíbrio de poder na região e, no campo palestiniano. Todos os estrategas sabem que nada pode mudar sem associação com o movimento de resistência islâmica Hamas.
EN - O medo é que... se o Hamas for isolado, e não houver diálogo, o movimento recorra às armas influenciado pela Al Qaida. É um medo realista?
IN : O Hamas nunca vai pegar nas armas de ninguém, só nas do povo palestiniano e do seu território. Mas os jovens, em geral, em terra palestiniana, e no mundo árabe e islâmico, continuarão a ser atraídos para o extremismo e para as acções violentas se continuarem a ser afastados dos valores islâmicos moderados. Aí, eles vão utilizar o extremismo e a violência para resolver as situações de crise.
EN : A Europa ainda tem um papel na mediação?
IN: Absolutamente. Estou surpreendido que o grande continente europeu - com quem partilhamos interesses, uma proximidade cultural e geográfica - tenha sido apanhado na armadilha por essa visão e acção limitadas, sob influência da posição americana. A Europa ainda tem muitas cartas para jogar e tem relações históricas e estratégicas com povos e Estados da região. Devia usar os contactos para activar este papel para ajudar a acabar com o conflito na região. Infelizmente, a Europa não vê a realidade das coisas. Provavelmente porque só vê a situação de um lado. Provavelmente porque só vê um ponto de vista do conflito. Mesmo se observasse os dois pontos de vista, a Europa resolve o som das respostas consoante o que quer ouvir. Limites que deve ultrapassar
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