Rotativas

Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008




O século XXI começou em grande para Vladimir Putin.
No dia 31 de Dezembro de 1999, este homem que, um ano antes, era um desconhecido, sucedeu a Boris Ieltsin poucos meses depois de este o apresentar publicamente. Estava acabada a era dos escândalos ieltsinianos e a errância política pós-perestroika. Com Putin soou a hora da austeridade.
Em dois mandatos, impôs-se como tsar da Rússia moderna. Foi eleito personalidade do ano pela Revista Time em 2007, que intitulou o artigo sobre Putin: "Escolher a ordem antes da liberdade"
Desde o princípio da presidência que Putin escolheu a ordem. Todas as apresentações públicas demonstraram o seguimento dessa linha e a imagem que criou: a de um presidente dinâmico, forte e autoritário. Era preciso restaurar o Estdao, o prestígio da Rússia. E ele assim fez à custa de algumas liberdades como a dos Media.
No activo tem a espectacular restruturação da economia: os oligarcas passaram a pagar impostos. O grande rival de Putin, Khodorkovsky,
patrão da Iukus, cumpre uma pena de oito anos na Sibéria por fraude; na realidade, criou um partido político e fundou um banco...algo inaceitável para Putin.
Mas o facto é que o ex-oficial do KGB e senhor do Kremlin reprimiu a corrupção. A dívida pública passou de 120 por cento, em 1998, para 13 por cento, em 2007, e o crescimento foi de 7 por cento no ano passado.
Foi tudo facilitado pela exploração das riquezas em gás e petróleo do solo russo, que se tornaram numa arma geoestratégica.
Um percurso luminoso que tem as suas zonas sombrias.
A começar pelo modo como impôs a ordem na Chetchénia, em plena segunda guerra dos independentistas. Acabou com a revolta à custa da liberdade. Anna Politovskaia, a grande crítica do desastre de Beslan, jornalista assassinada a tiro, em 2006, acusava Putin de ter destruido as reformas democráticas conseguidas na Rússia na década de 90.
Beslan, escola russa, na Ossétia do norte, acordou o mundo para uma realidade que todos queriam apagar. A ordem de assalto das forças especiais acabou num mar de sangue: o comando de chechenos que tomou a escola foi exterminado, mas também morreram quase três centenas e meia de civis, principalmente crianças.
Os métodos radicais do ex-agente do KGB têm dado origem às manifestações possíveis dos opositores. Alguns, como Kasparov, foram para a cadeia por isso, mesmo que por alguns dias apenas.
Putin ganhou a popularidade por ter dado aos russos um nível de vida decente e devolveu à Rússia o papel de potência mundial que não tinah desde a Guerra Fria. Apesar do imperialismo americano continuar a irritar Putin...
"Assistimos a mais violações de princípios de base da lei internacional. Um só Estado, os Estados Unidos, dita as regras, e ultrapassa as próprias fronteiras em todos os domínios."
AS escolhas de Putin vão pesar, decerto, nas do provável sucessor, Medvedev. Até porque já apresentou um plano de desenvolvimento para a Rússia até ao ano 2020.

Maria João Carvalho, para a EuroNews


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Dimitri Anatolievivitch Medevdev, o delfim de Putin, tal como Vladimir Putin foi, em 1999 o delfim de Boris Ieltsin, era um ilustre desconhecido até ser apresentado pelo czar dos tempos modernos. O jovem político, formado em direito, nascido em 1965, prometeu continuar o trabalho do mestre. Sem surpresas, portanto.
"É necessário seguir pelo caminho iniciado nos anos 90. E para avnaçar nessa linha não basta eleger um novo presidente capaz de assumir a responsabilidade. Também é preciso manter no posto a equipa que durante esse tempo esteve com Vladimir Putin".
A Rússia será gerida como uma empresa e os dois homens continuarão a trabalhar juntos, como foi bem explicado.
Medvedev, que se licenciou em 1987 e se doutorou em 1990, tal como Putin, que faz judo, também gosta de desporto viril, como o halterofilismo. Aprecia o o rock dos Black Sabbath e Ozzy Osbourn.
Quando Putin foi para o Kremlin, Medvedev foi nomeado presidente da Gazprom. Em 2003 foi nomeado chefe da administração do Kremlin. Finalmente, em 2005, quando chegou a vice-primeiro-ministro, os russos começaram a conhecê-lo. Foi responsável pelos projectos nacionais para melhorar a habitação e a natalidade no país.
Os analistas vêem em Medvedev um impulsionador da economia, pois a ordem já foi estabelecida com o antecessor. É tido como liberal e solidário e a formação de jurista parece contrabalançar o lado mais economicista do político.

Maria João Carvalho, EuroNews






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Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008




Passou toda a vida à sombra do do irmão Fidel - agora, verdadeiro Coma Andante. Cinco anos mais novo, Raul esteve sempre ao lado do irmão, primeiro na luta revolucionária e depois na liderança do país.
Aos 22 anos paricipou no assalto ao Palácio da Moncada, no dia 26 de Julho de 1953. Detido e depois amnistiado acabou por ser libertado na mesma altura que Fidel.
Seguiu-o na aventura do Granma e até às montanhas da Serra Maestra, onde aceitou o comando do exército rebelde em 1958.
Depois da victória em 59, com apenas 28 anos de idade, foi nomeado o n° 2 de todas as instituições das quais Fidel era chefe absoluto.
Mas foi no Exército que Raul Castro teve maior sucesso. Único general em Cuba, fez das Forças Armadas Revolucionárias (FAR) uma das mais extraordinárias do Terceiro Mundo. Fez história em Angola e ainda prestará contas pela morte de milhares de cubanos em condições desumanas..
Em 1975, enviou para Angola, 36 mil soldados e só uma terça parte regressou a casa; em 1977 enviou 55 mil e mais uma vez só a terça parte regressou a Cuba.
Tem fama de bom administrador e reduziu os efectivos de 300 mil para 60 mil durante a crise económica, depois do desmembramento da União Soviética.
É considerado duro e ortodoxo, mas também um pragmático que reconhece a necessidade de fazer reformas estruturais. Enquanto foi interino, não alterou nada de substancial, mantendo a mesma lealdade a Fidel.
Se teve algum diferendo com o irmão, manteve-o na esfera privada.



Recebi um comentário de Meireles que divulgo pela importância que tem:

UMA CRÍTICA MUITO DURA AOS MÉTODOS DO MPLA

Ao saber da conversa ocorrida em Acra (Ghana), Lúcio Lara reagiu: « Os cubanos falam de mais»

HUGO AZANCOT DE MENEZES

Longe de mim a pretensão de ter feito história ou de escrevê-la.
Contudo, vivi factos que envolvem, também , outros protagonistas.
Alguns, figuras ilustres. Outros, gente humilde, sem nome e sem história, relacionados, apesar de tudo, com períodos inolvidáveis das nossas vidas.
Alguns destes factos , ainda que de fraca relevância, podem ter interesse, como « entrelinhas da História», para ajudar a compreender situações controversas.
Conheci Ernesto Che Guevara em Acra , em 1964, e comprometi - me a não publicar alguns temas abordados na entrevista que tive o privilégio de lhe fazer como « repórter» do jornal Faúlha.

Já se passaram mais de 30 anos. O contexto actual é outro.
Pela primeira vez os revelo, na certeza de que já não é o quebrar de um compromisso, nem a profanação de uma imagem que no
A entrevista realizou-se na residência do embaixador de Cuba em Acra , Armando Entralgo González, que nos distinguiu com a sua presença.
Ali estava Che…
A sua tez muito pálida contrastava com o verde - escuro da farda.
As botas negras, impecavelmente limpas.
Encontrei-o em plena crise de asma, Socorria - se , amiúde, de uma bomba de borracha.
Che Guevara , deus dos ateus, dos espoliados e dos explorados do terceiro mundo, deus da guerrilha, tinha na mão uma bomba, não para destruir mas para se tratar… de falta de ar. Aspirava as bombadas, dando sempre mostras de um grande auto -domínio.
Fora-me solicitado que submetesse o questionário à sua prévia apreciação - e assim o fiz.
Uma das questões dizia respeito à cultura da cana - de - açúcar em Cuba.
Como encarava ele a aparente contradição de combater teoricamente a monocultura - apanágio dos sistemas de exploração colonial e tão típica dos sistemas de exploração colonial e tão típica do subdesenvolvimento - ao mesmo tempo que fomentava, ao extremo, a cultura da cana e a produção de açúcar - mono -produto de que Cuba se tornaria, afinal, cada vez mais dependente?
Outro tema que nos preocupava, a nós , africanos, era o papel dos cidadãos cubanos de origem africana na revolução cubana e a fraca representação deles nos órgãos de direcção dos país e do partido, os quais tinham proscrito qualquer discriminação racial.
Não constituiria o comandante Juan D´Almeida - único afro - cubano na direcção do partido - uma excepção?
Entretanto, a crise de asma agudizava-se , o que nem a mim me dava o à - vontade requerido nem, obviamente, ao meu interlocutor a disposição necessária para o diálogo.
Insistiu para que eu o iniciasse. Ao responder - lhe que não me sentia á vontade para fazê-lo, em virtude de seu estado, disse - me em tom provocante e com certa ironia :« Vejo que você é um jornalista muito tímido.»

No mesmo tom lhe respondi, que não me tinha pronunciado como jornalista, mas como médico .« Comandante, as suas condições não lhe permitem dar qualquer entrevista», disse-lhe eu.
Olhando-me , meio surpreso e sempre irónico, replicou: « Companheiro, eu não falo como doente, também falo como médico.
Em meu entender, estou em condições de dar a entrevista.»
Mas a crise de asma não melhorava, tornando impossível o diálogo. Foi necessário adiá-lo.
Reencontrámo-nos dias depois. Estava, então, quase eufórico. Referindo-se á atitude dos cidadãos cubanos de origem africana, à sua fraca participação na revolução, disse não gostar de se referir á origem ou à raça dos homens.
Apenas à espécie humana, a cidadãos, a companheiros.
Manifestei-lhe a minha total concordância. «A verdade », disse-lhe eu, «é que a revolução cubana tinha suscitado em todos nós , africanos, uma enorme expectativa, muita esperança, pois que, pela primeira vez, assistia-mos a um processo revolucionário de cariz marxista, num país subdesenvolvido e eis - colonial , tendo, lado a lado, cidadãos de origem europeia e africana, e onde a discriminação racial tinha sido, e ainda era, tão notório.»
Cuba seria pois, para nós, africanos, um teste. Seguíamos atentamente a sua evolução e queríamos ver como seria resolvido este problema.
Muitos, em África, mostravam-se cépticos. Mais do que interesse, da nossa parte existia ansiedade.
Segundo Che Guevara , a população de origem africana, a principio, não participava no processo. Via-o com uma certa indiferença, como mais uma luta…
«deles». Mas a desconfiança estava a desaparecer, era cada vez maior a adesão, á medida que iam constatando que este processo era totalmente diferente daqueles que o precederam. Que era um processo para todos.
Che Guevara acabava de chegar do Congo - Brazzaville.Visitara as bases do MPLA em Cabinda (de facto, na zona fronteiriça Congo/ Brazzaville /Cabinda) .
Pedi - lhe que me desse as impressões da sua visita. Che não era um diplomata, mas um guerrilheiro, e foi directamente à questão:
« O MPLA tem ao seu dispor condições de luta excepcionais.
Quem nos dera a nós que, durante a guerrilha, em Cuba, tivéssemos algo comparável. Mas estas condições não estão a ser devidamente aproveitadas, exploradas …
O MPLA não luta, não procura o inimigo , não ataca…
O inimigo deve ser procurado, deve ser fustigado, deve ser perseguido, mesmo no banho. Agostinho Neto está a utilizar a luta armada apenas como mero instrumento de pressão política.»
Dei parte da conversa a Agostinho Neto. Não reagiu. Tal como a Lúcio Lara, que me respondeu:
« Os cubanos falam demais.»
Mas Che falava verdade. Durante vários anos, na minha qualidade de responsável dos serviços de assistência médica da 2º região político - militar do MPLA (Cabinda ) , fui disso testemunha a cada passo.
Aí e assim , como contestação a esta e outras situações idênticas, surgiria dentro do movimento, antes de Abril de 1974, a Revolta Activa.

Hugo José Azancot de Menezes foi médico. Foi um dos fundadores do MPLA


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